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Cynthia

Logo que eu e a minha irmã mudamos para esse apartamento, o terceiro em nossa história maringaense, percebemos uma coisa estranha no banheiro. Entre os azulejos da parede, no rejunte, tem uma palavra gravada com algum tipo de objeto afiado: CYNTHIA.

(infelizmente é meio difícil de registrar)
(infelizmente é meio difícil de registrar)

Nós imediatamente começamos a especular que Cynthia é o fantasma da casa. O nosso fantasma. Quem sabe uma antiga moradora, uma universitária que enlouquecida com a semana de provas deixou suas marcas nas paredes e acabou morrendo de stress e agora assombra o apartamento em busca de sossego.

Já perguntamos para a síndica quem morava aqui antes da gente. Era um cara, estudante de engenharia, que morava sozinho. Nenhuma Cynthia. Teria sido Cynthia sua namorada que gravou seu nome no banheiro em uma tentativa simbólica de também ficar marcada em seu coração? Ou uma amiga zoeira querendo fazer uma brincadeirinha? Quem sabe o próprio cara seja responsável pelo rabisco porque tinha uma Cynthia na qual não conseguia parar de pensar e manifestou esse sentimento com um discreto registro na parede?

O caso é que agora nós responsabilizamos a Cynthia por qualquer coisa meio esquisita (ou completamente comum, mas que é bacana explicar com alguma dose de drama) que acontece por aqui. Uma vez, com todas as janelas fechadas, sentimos cheiro de um perfume alheio e masculino em um dos quartos: Cynthia. Quando as portas batem repentinamente: Cynthia. Quando a porta do meu quarto não para fechada nem com o peso de cadeiras: Cynthia. Quando a lâmpada do meu quarto queima pela quinta vez em um ano e meio, ou apenas começa a piscar alucinadamente não importa quantas vezes a gente mexa na fiação: Cynthia. Quando alguma coisa some e não conseguimos encontrar em lugar nenhum: Cynthia.

Fazemos isso em voz alta. Dizemos como se fosse óbvio e sem pudor algum de soltar essas palavras na frente de outras pessoas – “foi a Cynthia”. Às vezes apenas berramos, daquele jeito de quem está dando uma bronca em uma amiga – “CYNTHIA!!!!!!!”. Suspiramos com aquele ar de quem não aguenta mais mas já está conformado com o padrão dos acontecimentos – “af, Cynthia”.

Talvez esse seja apenas o único resultado possível considerando mentes que foram formadas com porções generosas de episódios de “Clube do Terror”, do seriado infantil “O Fantasma Escritor”, do quadro “O Real e o Sobrenatural” do programa da Marcia Goldschmidt ou daquele de lendas urbanas do programa do Gugu. Eu sinceramente não sei o que mais esperar de crianças que constituíram suas versões de medo com base em uma freira demoníaca que aparecia no fundo de acidentes de trânsito ou em mulheres misteriosas que acabavam deixando caras que elas conheciam na balada acordando sozinhos em uma banheira de gelo e sem um rim. A Cynthia é família, é claro. Já estamos apegadas.

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Seu Zequinha

Eu não vivi a experiência ativa de ter um avô presente. Meu avô materno faleceu muitos anos antes que eu nascesse e meu avô paterno morava longe, o vi poucas vezes e ele faleceu quando eu ainda era muito criança. Talvez por isso (ou por outras razões, sei lá, não sou psicóloga) eu frequentemente adoto idosos como meus avôs platônicos. Já aconteceu com o escritor Ricardo Azevedo, durante um evento de literatura. Já aconteceu com um velhinho barbudo lendo em um e-reader num restaurante do Rio de Janeiro. Já aconteceu com um japonês que fez uma viagem de mais de vinte horas de van com a minha turma para um evento acadêmico.

E aconteceu com o seu Zequinha – com a notável diferença de que com esse, ao contrário dos outros, eu realmente cheguei a trocar palavras.

O seu Zequinha já não tinha mais cabelo, mas sustentava um bigode completamente branco. Usava óculos e estava sempre de calça social e camisas de botão. E tinha uma perna de pau (eu nunca soube o que tinha acontecido com a perna real que faltava). Ele era um velhinho sorridente e alto astral, que falava alto e contava piadas.

seu zequinha era uma versão de bigode branco do steve harvey

Seu Zequinha morava na casa ao lado da minha; era uma casinha de madeira com um galinheiro no fundo e um bar na frente. E, desde os primórdios da minha existência, fui uma frequentadora assídua desse bar. Conta minha mãe que antes que eu aprendesse a andar direito, já conseguia escalar uma mesa e gritar pela janela “QUINHA, VEM ME BUSCAR!”. E o seu Zequinha ia me buscar. E lá ficava eu, uma bebê minúscula de olhos gigantes sentada no balcão ou na mesa de sinuca, ganhando doces dos frequentadores. Aí eu cresci e comecei a ir andando para lá, comprava meus próprios doces, minhas figurinhas para o álbum do dragon ball, e ficava batendo um papo com o seu Zequinha.

Ele tinha um lugar de sempre: um banquinho de concreto na frente do bar. Quando passava para ir à escola de manhã, seu Zequinha já estava sentado lá. Quando eu voltava ao meio dia, ele ainda estava no mesmo lugar. E, em todas as vezes, nós nos cumprimentávamos do nosso jeito: um gritando para o outro “é eu!” (que soava mais como ÉIEU). Todos os dias. Durante anos.

Quando o seu Zequinha morreu eu já não morava mais na cidade e a minha mãe levou uns dias para ter coragem de me contar. Dia desses encontrei com a filha dele e ela me disse que sempre que olha pra mim, se lembra do pai. Eu também sempre lembro dele quando olho para a frente do bar (que já foi o bar de outras pessoas, uma igreja e agora é só um espaço vazio) e não tem ninguém sentado lá.