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Breve compilado da estupidez humana

Se tem uma coisa que eu frequentemente pratico, mesmo que involuntariamente, essa coisa é a estupidez. E, acredito eu, é possível de se aprender com a estupidez alheia a não sermos estúpidos no futuro. Portanto, abracem aqui essa bela chance de aprenderem comigo.

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Estava em Curitiba e ainda não estou mestra na arte de pegar os ônibus corretos. O negócio é que me confundo com o sentido vezes demais e acabo me enfiando no ônibus da linha certa, mas que está indo para o lado contrário do que eu preciso ir, uma coisa que poderia ser evitada com a ação simples de atravessar a rua e utilizar o outro ponto. Como já fiz isso em três cidades diferentes (incluindo Maringá), em ocasiões que percebi apenas dentro do ônibus que estava indo pro caminho errado, agora estou me policiando para sempre perguntar qual o sentido certo. Afinal, apenas os nativos podem esclarecer questões que o Moovit (sou usuária adepta e fã declarada deste aplicativo que mais parece um anjo) não consegue evidenciar.

Bem, então lá estava eu em Curitiba. Na minha carteira tinha duas notas de 2 reais, uma nota de 50 e algumas moedas. Saí de uma aula em um lugar diferente, chequei no Moovit onde era o ponto certo para voltar e quando cheguei tinham dois tubos. Confiei no meu instinto, peguei os 4 reais na carteira, paguei o cobrador e entrei em um dos tubos. Meu instinto é estúpido. Desconfiei. Resolvi perguntar e, óbvio: estava no tubo errado.

Saí, derrotada, em direção ao tubo do outro lado da rua. A cobradora disse aquelas palavras horrorosas que gelam um coração em instantes: não tenho troco. Comecei a contar as minhas moedas, me atrapalhando toda na conta porque, além de ser péssima com números, estava amaldiçoando a minha estupidez. É claro que as moedas não eram o suficiente. Ridícula. Mas essa história tem um final feliz. Não precisei cair de joelhos perguntando aos céus a razão da minha estupidez, nem fiquei abandonada e sozinha em uma cidade meio que desconhecida. Contrariando a lenda dos curitibanos ruins, um cara apareceu e passou o cartão dele pra eu entrar. Morri de agradecer. Entrei no ônibus certo e cheguei ao meu destino.

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Estava no Rio de Janeiro e tinha acabado de organizar minhas coisas no armário do hostel antes de sair para turistar. O cadeado novinho que eu tinha comprado para a viagem vinha com duas chaves. Pensei: melhor guardar separado. Coloquei uma dentro da bolsa, a outra dentro da necessaire. Tudo perfeito, não fosse a estupidez. Peguei a necessaire e a bolsa, coloquei as duas dentro do armário, tranquei o cadeado. Estúpida.

Tive que explicar a minha estupidez um sem fim de vezes: para todos que tinham viajado comigo, para a moça do hostel para quem pedi um alicate, para os funcionários da loja em que comprei uma serra para resolver o problema. Minha primeira compra em terras cariocas: uma serra. Passei o dia todo turistando, subindo e descendo ladeiras e escadarias com uma serra na bolsa. De volta ao hostel, eu e duas amigas (anjas) nos alternamos na serrinha até que o cadeado foi, enfim, vencido.

uma imagem real (tão horrível quanto a situação)
uma imagem real (tão horrível quanto a situação)

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Estava em casa e era um dia qualquer. Começou a chover de repente e o vento, uma coisa louca, trazia muita da chuva, que já começou torrencial, pelas janelas. Fechei a janela do quarto. Pensei: a sala deve estar alagada. Saí correndo para fechar as janelas. Correndo. Estúpida.

A sala estava alagada. Minha imbecil correria fez com que eu escorregasse violentamente na poça que já tinha se formado no chão. Caí com tudo. De costas. Braço torto, cabeça produzindo um baque alarmante no choque com o chão. Minha irmã vinha logo atrás de mim, também pensando em fechar a janela só que caminhando como um ser humano racional. Ela nem conseguiu soltar aquele gostoso riso de quem vê um coleguinha se esborrachar no chão, só me olhar com cara de desespero.

Me arrastei para cima do colchão na sala (nessa época eu não tinha sofá) com dores por todas as partes. Fiquei deitada por vários minutos com elas: as dores, as lágrimas e a minha estupidez. Quem fechou a janela foi a minha irmã.

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Eu tinha 15 anos e estava me arrumando para a festa de 15 anos de uma amiga. Meus pais já estavam prontos, minha irmã já estava pronta e eu, já vestida, não conseguia ficar satisfeita com o meu cabelo. O meu cabelo tem um problema sério: na frente, bem na parte da franja, tem um “redemoinho” em formato de S que insiste em me tirar do sério. Nesse dia, eu já não aguentava mais tentar ajeitar o negócio com produtos, chapinha e o poder da mente. Então, fiz o que qualquer estúpida faria nessa situação: me tranquei no banheiro, peguei uma daquelas tesourinhas escolares e cortei uma franjinha. Sim.

Vejam bem. Por um motivo qualquer – digamos, a estupidez – eu achei que, se ao invés de ter franja comprida eu tivesse uma franjinha, todos os meus problemas estariam terminados. Não acho que vocês ficarão surpresos quando eu disser que não foi bem assim. Além de ainda ter um redemoinho que meio que dividia minha franjinha em duas partes, eu tinha uma nova e ridícula franjinha muitíssimo torta. Isso porque eu juntei toda a frente do cabelo, enrolei e cortei com uma TESOURA ESCOLAR. As pontas ficaram mais desconexas que os meus pensamentos.

Quando saí do banheiro, derrotada, minha mãe deu um berro perguntando o que tinha acontecido. Minha irmã soltou uma gostosa gargalhada. Tive que prender a franjinha com um grampo. Coisa que, pasmem, eu poderia ter feito desde o princípio. Mas, agora, eu estava apenas na primeira de semanas de vezes que eu usaria a franja presa para camuflar a estupidez capilar.

O mais incrível – e estúpido – é que esse não foi o meu primeiro deslize. Quando criança, me escondi com uma tesoura escolar (sempre) dentro do armário de casa e picotei o cabelo. Naquela vez as coisas já não tinham dado muito certo; na verdade, o índice de sucesso foi bem nulo. E ainda assim lá estava eu, anos depois, refazendo a cagada. Não sejamos mais como eu fui. Vamos todos beber dessas experiências. Vamos todos ser menos estúpidos.

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Fanfic da vida real: o vizinho injustiçado

Um vizinho apareceu no grupo do prédio no aplicativo WhatsApp – talvez confundindo-o pela rede social Twitter – para reclamar da tremenda “palhaçada” que estava acontecendo naquela manhã de quarta-feira. Pois, acreditem: estavam cortando a grama na frente do prédio às 9 (nove) horas, fazendo com que o vizinho em questão, vamos chamá-lo de Vitinho, acordasse de seu tranquilo sono. Vitinho, que foi dormir às três após uma cansativa noite de estudos e só queria poder descansar. Vitinho, que não conseguia acreditar na atitude maldosa e calculista da síndica ao marcar este horário para o corte da grama, especificamente para impedir o seu sono. Vitinho, que declarou em muitas mensagens no WhatsApp que “custa a acreditar que não tenha sido de propósito”.

E aí você pode pensar: nossa, mas este rapaz está descontrolado. Não tinha como a síndica adivinhar que ele estaria dormindo. Ela não pode planejar as atividades do prédio conforme os horários de repouso de cada condômino.

Você está obviamente errado. Na verdade, o prédio todo tem reuniões secretas de condomínio em que a síndica conta a todos os moradores os planos complexos e intrincados que ela bolou para fazer da vida de Vitinho um inferno.

calma, vitinho
calma, vitinho

A história da grama? Bem, todos sabem o quanto a falta de oito horas de sono diárias podem ser prejudiciais para qualquer jovem. Então, a síndica planejou ficar de tocaia na frente do prédio, observando até que horas Vitinho deixava a luz do quarto acesa. Quando finalmente, na fatídica quarta-feira, ele foi dormir às três, ela rapidamente telefonou para seu comparsa O Homem Que Corta Grama e pediu que ele viesse cedo, propositalmente interessada em atrapalhar o sono do nobre vizinho.

Há alguns dias a cidade inteira e algumas cidades da região ficaram sem água por problemas nas bombas de distribuição. O que mais seria isso senão um golpe da síndica para causar a Vitinho desconforto e transtorno? Ela SABIA que Vitinho, como o ser humano especial e singular que ele é, tomava banho todos os dias, usava a descarga, bebia água, lavava a louça. De posse desta informação, a síndica foi pessoalmente até as bombas de água e causou danos que levariam dias para serem corrigidos. Não satisfeita com secar as torneiras do prédio, ela providenciou que ninguém tivesse água nas proximidades para que Vitinho não pudesse pedir ajuda.

Esses dias Vitinho ficou sem suas chaves e teve que recorrer aos vizinhos para conseguir entrar em casa. Que outra pessoa que não a síndica teria pego as chaves no bolso de Vitinho para então jogá-las na caçamba de um caminhão carregado de soja em direção ao Nordeste onde as chaves jamais poderiam ser encontradas?

“Reclamaram que o meu cachorro faz as necessidades no gramado da garagem”, disse Vitinho em meio ao quebra-pau que já estava envolvendo outras tretas no grupo do WhatsApp. Que outra pessoa que não a síndica teria ela mesma feito as necessidades no gramado para então culpar o seu cachorro e criar uma aura de chateação para você, ó caro Vitinho?

Ora, claramente “essa senhora”, como você gosta de dizer, é a fonte de todas as mazelas da sua vida, Vitinho. Tem mais é que se indignar com as atitudes maléficas e mesquinhas desta que se diz a responsável por providenciar que a grama seja cortada mas que na verdade só quer te deixar cansado e indisposto.

E tem mais: eu não duvido nada que a síndica esteja macumunada com Dilma, Lula e o PT. Não seriam todos os problemas do Brasil plots desenhados para prejudicar a vida de Vitinho? Estamos de olho.