dora aventureira

Eu deitei numa rede na água

Tudo começou quando eu e minha irmã pensávamos em um destino para as férias tardias que ela teria depois de um calendário acadêmico bagunçado pela greve na universidade. Considerando possibilidades, nos deparamos com ela: a imagem das redes na água em Jericoacoara. E então basicamente eu passei a viver pelo dia em que poderia ser uma daquelas pessoas deitadas na rede na água. Até que o meu dia chegou. É tudo aquilo que eu imaginava? Sim. Minha vida foi impactada para sempre? Sim. É a melhor coisa que já me aconteceu? Provavelmente.

um retrato de realização e felicidade
um retrato de realização e felicidade

Chegar em Jericoacoara já é uma aventura. O lugar fica a uns 300km de Fortaleza e sempre que pesquisava como chegar lá lia as mesmas frases “tem que ir de 4×4”, “não tente pegar estrada sozinho”, “procure um transfer”. Acho que apenas foi possível entender a real validade dos conselhos quando estava em cima de uma caminhonete que não parava de balançar passando pelo meio de dunas e jegues selvagens em caminhos sem nenhuma demarcação, sinalização ou regras de trânsito.

A viagem é longa (na perspectiva de alguém que saiu de Fortaleza, cerca de sete horas) mas vale a pena. Jericoacoara é o lugar mais bonito em que já estive. Todo lugar que a gente olha podia automaticamente se transformar em um wallpaper do Windows, um cartão postal, uma imagem de calendário. E também é o lugar mais tranquilo em que já estive. Até na minha minúscula cidade natal não é possível andar na rua com aquela aura de tranquilidade que apenas uma vila com todas as ruas de areia cheias de turistas excessivamente queimados de sol pode te proporcionar. Se me permitem dizer, é uma ~vibe muito boa.

Começando pela recepção. Passamos apenas uma noite em Jeri (#íntima) e o hostel, escolhido meio às pressas no Hostelworld, foi uma grata surpresa. O dono chamava Gaúcho, era muito simpático e sempre pronto a ajudar, explicar as coisas e dar dicas do lugar. E ainda praticou a gentileza de nos deixar guardar nossos pertences, tomar um banho e passar o tempo até o ônibus noturno de volta confortavelmente acomodadas nas redes da varanda do hostel, muitas horas depois do check out. A gente se desacostuma com gentilezas, né? Mas que bença é a senhora gentileza. (um beijo pro gaúcho e pras outras galeras simpáticas que lá trabalhavam, se um dia voltar hostel tirol top 1 escolha de lugar pra ficar, amo vocês.)

Honrando a classe de Turistas Modo Hard, fizemos um desses passeios de buggy que te levam aos principais pontos turísticos da região. O que, no caso de Jericoacoara, quer dizer uma grande pedra furada perto do mar, uma árvore deitada pelo vento, dunas e mais dunas de areia, praias e duas lagoas de água quentinha e clarinha nas quais gênios abençoados resolveram perdurar redes. Nosso bugueiro Mateus era fluente em sertanejo universitário e agora essas memórias têm a mesma trilha sonora das festas maringaenses, com o diferencial de uma bela vista e a sensação de vento na cara e sol torrando todo o corpo. O segundo sol chegou, ele mora no Ceará e deu conta de me queimar mesmo com as camadas de protetor solar, causando o descascamento até do meu couro cabeludo. Se você tiver sorte, no passeio dá até para avistar uma tartaruga marinha. E se você tiver mais sorte do que eu, a tartaruga vai estar viva. RIP tartaruga marinha.

Depois de dois dias de intensivão de praia, turistas, um sorvetinho 10/10, uma porção de linguicinha que era sensa e areia praticamente se fundindo com a pele, voltamos para Fortaleza em uma longa e desconfortável viagem noturna que começou com muita emoção em uma jardineira sagaz nas estradas de areia e terminou em um ônibus que chegou com quase duas horas de atraso e tava com o ar condicionado tão potente que eu tentei dormir coberta com a minha toalha de banho molhada e fedida. Quando coisas boas acabam é sempre com um baque forte, coisas da vida.

Acredito que a lição que quero deixar no coração das pessoas é: se você avistar uma redinha na água, deita.

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dora aventureira

Relatos de calor em Fortaleza

“É muito quente no nordeste. O sol é diferente. Não é calor que nem aqui”, eles disseram. E eu só fazia pensar que, poxa, Maringá também é bem quente. Mas, em minha primeira visita ao nordeste, percebo que obviamente a cidade de Fortaleza no Ceará deve ser iluminada e aquecida por pelo menos dois sóis.

Passei uma semana na cidade em meio a sensações térmicas de estamos-todos-vivendo-em-uma-panela-de-sopa. Descobri que minha cor de queijo que adquiriu tons vermelhos de sol combinada com a cara de perdida denunciavam logo a situação de turista, com uma curiosa quantia de locais achando que eu era gringa (seria o meu sotaque tão horrível que o português fica comprometido em ouvidos não treinados?).

Ficamos hospedadas no Hostel Terra da Luz, cuja maior ~bença era o ar condicionado nos esperando chegar suadas após qualquer caminhadinha na vida exterior. Não é o melhor hostel que já fiquei, mas de jeito nenhum é o pior (alô Rio de Janeiro!) – não tive nenhum problema e dava pra ir andando pra muitos lugares, apesar de ficar em uma parte da cidade que é meio “esquisita”.

A cidade, aliás, tem bastante daquela sensação de perigosa, o que é algo frequente em cidades grandes, mas que foi especialmente sublinhado em Fortaleza. Muita gente nos alertou na rua para tomar cuidado, evitar alguns caminhos e coisas do gênero. E o assédio é fora do comum e incomoda bastante, não dava para andar uma quadra sem uma cantada, uma buzinada, uma assoviada. Fora isso, aproveitando o momento político, ouvi muito sobre o “heroísmo” de Sergio Moro (que momento tenebroso para ser paranaense, meu amigos), fui acusada de ter “cara de petista” uma vez e tive que ouvir um senhor dizer que bom mesmo era na época da ditadura porque o cidadão de bem blá blá blá socorro. Vida que segue.

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Muito boas as comidas cearenses. Comi a tapioca mais fininha e gigantesca da vida, abracei com grande alegria todas as oportunidades de comer carne de sol e consegui completar com sucesso a missão de não pedir “mandioca” nos lugares, lembrando sempre de dizer “macaxeira”, como uma pessoa entendida. O baião de dois é certamente minha nova paixão culinária, fico triste só de pensar que agora voltarei a comer o arroz com feijão normal de todos os dias. Também gostaria de trazer para Maringá a glória de todos os bares servirem bolinho de peixe pois uma delícia.

A única pena é que as refeições me derrubavam depois. Não rola comer muito, visto que a comida é pesada e você tem a vontade imediata de se largar no chão depois de comer, o que não é muito positivo se você estiver turistando e andando no sol por caminhos nunca antes percorridos por seus pés suados.

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Sair em Fortaleza é bacana, ainda que as pessoas insistissem em indicar e elogiar rolês tais como eu veria por aqui, o que nos fez parar em um bar de jovens descolados onde tocava um COVER DE JOTA QUEST. Por outro lado, pude ver uma quadrilha, axé e muito forró no Pirata, um bar que fica bem na cara da praia, que faz sua fama por ser “a segunda-feira mais louca do mundo” – e eu achei bem louca mesmo. As pessoas dançam muito, o que não é comum de ver aqui. E é maravilhoso.

Porém, o rolê #1 no meu coração foi o Mercado dos Pinhões. Fomos no fim da tarde do domingo, dia em que o local toca forró pé de serra. É bem o meu tipo de coisa: começa às 18 horas e lá pelas 21 já tá todo mundo voltando para casa. Não sei como são os outros dias, mas esse é frequentado basicamente por idosos que ARRASAM dançando um forrózinho veloz e bem habilidoso que eu provavelmente jamais saberei reproduzir. Ficamos assistindo tudo do Bodega dos Pinhões, um bar que fica bem em frente ao Mercado, que serve uma porção dos deuses de carne de sol com mandioca e baião de dois (sério, melhor comida de Fortaleza).

E ainda tem Pedrosa, o garçom mais simpático e ativo da cidade, que até se oferece para comprar pra você um açaí do Mercado ou um espetinho do bar ao lado. Junto com Pedrosa, o título de melhor pessoa pode ser concedido à senhora que se sentou na mesa ao lado da nossa no Bodega. Ela era fabulosa. Animadíssima, chegou e já estava rodeada de um grupo de migas idosas, era flerteira, carregava no carro sua própria caixa de som com microfone para colocar um sambinha para tocar enquanto não tinha forró do lado. Achei tudo divertidíssimo e fiquei chateada apenas com o fato de não ter aproveitado o local todos os dias possíveis (que é de quinta a domingo, variando os estilos musicais). 10/10.

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Graças a uma maldição que me persegue em qualquer lugar que eu visite, não consegui ir a alguns museus por motivos de reforma/exposição que acabou/confusão nos horários de funcionamento. Nisso, perdi o Museu do Ceará, uma exposição no espaço cultural dos Correios, o Centro Cultural Banco do Nordeste e o Teatro José de Alencar. Mas deu para ver alguns.

passarela ensolarada do dragão do mar
passarela ensolarada do dragão do mar

O Dragão do Mar é bem legal, as exposições estavam bacanas e bem caprichadinhas. Fora isso, o lugar já vale a visita por ele mesmo: o prédio é bem legal, tem uns grafites bonitos, bares e restaurantes bonitinhos logo ali (apenas esteja ciente dos perigos de encontrar um cover de jota quest ou o john, o garçom gringo que te ignora). O planetário, mesmo com uma sessão um tanto quanto antiga, também é bacana e eu certamente seria uma criança viciada em estar lá caso lá morasse.

A Caixa Cultural foi a minha favorita dessa leva. A exposição era de Weaver F, um artista que visitou um bocado de cidades do interior do Ceará e fez intervenções em casas e espaços públicos. As pinturas dele são lindas, queria ter na minha casa, na minha rua, em qualquer lugar que desse para olhar todo dia. Se este texto chegar a alguém que esteja indo para Fortaleza até o fim de abril, fica a dica que vale a pena.

Já a famosa casa do José de Alencar é uma aventura para embarcar se estiver muito na onda. É bem longe das outras coisas, que são mais centrais, o que dá umas boas horinhas de ônibus. As exposições são fixas (tem pinturas sobre as obras do autor, uma sala só de pinturas sobre Iracema, uma sobre a história do espaço e uma coleção de rendas e objetos da cultura afro) e tem uma guia que acompanha, mas não são assim tão impressionantes. O espaço da casa é bem bonito, mas não é imperdível.

Aventureiros também curtirão visitar o Parque do Cocó – que é mais fácil de chegar que a casa do menino José. As trilhas passam por laguinhos com vitórias-régias (EU RELEI NUMA VITÓRIA-RÉGIA!), algumas árvores próprias da região e dá pra ver como é que é um mangue. No site havia a promessa da existência de raposas, mas só consegui avistar saguis, garças, muitos gatos fofinhos dormindo no chão ou em árvores, calangos e algumas aves pequenas.

No mais, passear no Mercado Central – que é verdadeiramente gigantesco e apinhado de coisas – e no Emcetur é legal para quem quer comprar um punhado de artesanatos, roupas ou castanhas. Saí de lá com um generoso carregamento de bloquinhos para dar aos amigos queridos e um pacotinho de ímãs que eu levei uns bons minutos escolhendo para a minha geladeira.

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Em outras observações aleatórias:

  • Nunca antes tinha visto tanto abdômen definido como vi pelas ruas beira mar em Fortaleza. É muito cara com tanquinho. As academias devem bombar o dia todo.
  • O sotaque é apaixonante. Por que, ó céus, tive que nascer sob influência desse erre puxado e não consigo nem arriscar uma imitação daquela fala ritmada cearense?
  • É preciso guardar uns bons trocados para usar com água. Impossível ficar sem se hidratar com aquelas temperaturas e o número de bebedouros nos lugares é zero – o que deve ter uma explicação, mas é uma surpresa ingrata para quem pretende apenas encher sua garrafinha.
  • Tem muito gato em Fortaleza! Todo canto a gente encontrava um grupão de gatinhos, alguns muito carentes e miantes e sedentos de atenção. Depois do gato sem um olho do Rio, agora vi também um gato sem uma patinha.
  • Essa galera entende de vida boa e as redes são abundantes. Cê olha para as casas e a maior parte delas tem pelo menos uma rede na varanda. Tem casa com mais de uma rede na varanda, dá para acreditar? Eu, que sou uma grande amante de redes, gostaria apenas de deixar aqui o meu amor declarado e reforçar a meta de vida que é voltar a morar em uma casa possuidora de rede.
o implacável sol de fortaleza
o implacável sol de fortaleza

Dois dias da minha passagem pelo Ceará foram investidos em Jericoacoara, mas isso é outra história. E outro post, acho eu.