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Leituras de 2017 (julho a outubro)

Se não dei conta nem de aparecer neste blog cheio de poeira e cheirando a abandono para os breves comentários sobre minhas leituras bimestrais, já deve ser possível imaginar que não tenho lido tanto assim. A essa altura do ano passado, já tinha batido minha meta literária quantitativa de sempre (ler 50 livros) e estava plena e realizada. Agora, estou enrolada: não só ainda não cheguei a comemorar o 50º livro do ano como também ainda me faltam algumas categorias do desafio literário luxuoso para cumprir – e pretendo cumprir com glória até a última badalada da meia noite da virada.

Enquanto isso, vamos de leituras atrasadas, com os livros lidos de julho até outubro.

  • “Quiçá”, Luisa Geisler

“Quiçá” é um livro que você acaba sem saber direito se compreendeu por inteiro e que só de pensar que as partes da história que você entendeu são mesmo assim sente arrepios. Não sei nem o que dizer das coisas não ditas – que, aliás, são o ponto forte desse livro. O jeito como essas coisas foram construídas para estarem ali só de leve, sutilmente, mas nossa.

O livro conta a história de Clarissa,  filha de Lorena e Augusto, dois publicitários descolados que têm sua própria #agência e acham que trabalhar demais é legalzão, porque nossa como é cool ser workaholic e virar a madrugada tocando jobs. Assim, Clarissa vive abandonada, cheia de coisas mas sem nenhuma pessoa e, aos onze anos, já se acostumou a ter sua própria rotina solitária. Até que Arthur, filho da irmã de Lorena, vai morar com a família. E aí vemos a relação de Clarissa e Arthur em um livro não linear que está em um almoço de natal em família, mas fica indo e vindo para mostrar momentos que os primos passaram juntos durante todo o tempo de convivência mútua.

Só tem umas histórias aparentemente aleatórias – se há conexões, perdi – entre um capítulo e outro que não entendi a razão de ser e me deixaram bem confusa até pegar o conceito. Na verdade, não peguei o conceito. Sei lá. Poderia passar sem. E ainda gosto mais de “Luzes de emergência se acenderão automaticamente”.

Sabe-se que ligações no meio da noite não são para bobagens: ou alguém morreu, ou alguém vai morrer, no mínimo de saudade.

  • “Contando os dias”, Ana Luísa Bussular, Fernanda Vargas de Oliveira, Gleize Perez Alvim de Oliveira, Nathalie Christi Sikorski e Rhaissa Sizenando da Silva

Esse livro é resultado do TCC da graduação de minha amiga e youtuber Analu. Peguei o livro emprestado para ler e apenas posso ficar feliz por Analu estar sempre perseguindo esse mundo dos livros e contaminando outras almas. “Contando os dias” traz relatos de mulheres presas que vivem longe dos filhos, escritos pelas cinco jornalistas/autoras (dois textos de cada uma, com mulheres diferentes). É uma realidade muito diferente de tudo que conheço e vivo, e conhecer as histórias dessas mulheres – que as autoras encontraram e conversaram para  então escrever – faz parar para pensar. Vale a leitura.

  • “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago

Que bom que uma das categorias do desafio luxuoso era ler um Saramago, pois eu nunca antes tinha lido nada do autor e, ó ceus, o tanto que eu estava perdendo!!! “Ensaio sobre a cegueira” é sim tudo isso que falam que ele é; Saramago é sim tão genial quanto sempre dizem ser. Amei forte, amei bonito e fiquei imensamente impactada.

Lembro de ter visto o filme há muito tempo, mas não me lembrava de quase nada da história quando peguei o livro para ler. E a história é aquela: uma cegueira repentina começa a se espalhar pela população, vinda de não se sabe onde e sem nenhum tipo de explicação possível de encontrar. As pessoas, do nada, ficam cegas – só de pensar nisso eu já fico um pouco afobada. Nessa cegueira conjunta, uma única pessoa não perde a visão: a esposa de um oftalmologista, que passa o tempo todo convivendo com os cegos e mantendo o segredo de que vê. Tem o ditado de que em terra de cego quem tem olho é rei, mas, nesse caso, pita que pariu. É um livro tão forte que, quando terminei, tive pesadelos. Esse é o tanto de impacto. Já quero ler mais Saramago.

  • “Dias de abandono”, Elena Ferrante

Após o avalanche de febre Ferrante que me abateu com a leitura da série napolitana, foi até loucura encarar mais um livro dessa mulher no mesmo ano. Elena Ferrante é uma bruxa. Ela acaba com a gente. Li “Dias de abandono” em uma leitura conjunta com moças da internet e a conclusão a que cheguei é que não há como não ficar DOENTE com o que sai da mente de Ferrante.

A história é a de Olga, uma mulher casada, com dois filhos e um cachorro que enfrenta uma vida em que o marido saiu de casa para ficar com outra mulher. Nos dias de abandono de Olga, acompanhamos tudo o que ela pensa e sente depois desse acontecimento e não é exagero dizer que sofremos junto com ela: a cada pensamento, a cada luta que ela tem com ela mesma, as ondas de tristeza e desespero, e particularmente o episódio de um dia que um desastre atrás do outro, tudo te arrasta e te mergulha no mundo do livro de um jeito que descaralha a cabeça. Leiam. Mas leiam com cautela.

  • “O outro pé da sereia”, Mia Couto

Depois da bad que foi “Dias de abandono”, queria ler alguma coisa que levantasse o ânimo da minha alma. Então, Mia Couto. Os neologismos, universos e linguagem geral usada por este ser humano são capazes de levantar qualquer espírito.

Dito isso, “O outro pé da sereia” é o livro de Mia Couto que menos gostei até agora. Talvez porque não tenha captado muito bem o desfecho da história, onde ela queria chegar, não sei. Mas, ainda assim, é um bom livro. Trata-se de uma história que mistura religiões, crenças e mitos, personagens do passado e do presente, uma santa, uma brasileira, um americano e vários personagens de um vilarejo do Moçambique. E, ave, como escreve bonito.

Os homens não gostam que as mulheres pensem em silêncio. Nascem-lhes nervosas suspeitas.
— Enquanto ia costurando, o seu pai não imaginava que eu estava pensando. Minha cabeça viajava por todo lado.
Nesses escassos momentos, Constança era mulher sem ter que pedir licença, existindo sem ter que pedir perdão.

  • “O conto da aia”, Margaret Atwood

Tenho a sensação de que li “O conto da aia” depois que todo mundo no planeta já tinha lido “O conto da aia”. E que bom que li. Comecei a leitura, finalmente, para participar do segundo encontro da vida do Leia Mulheres de Maringá e amei forte. A história que Margaret Atwood conta é a de uma sociedade distópica com algumas coisas mais próximas de realidades atuais de que distopia, em uma narrativa que deixa a gente tensa. Mas, foi também um livro que me envolveu de um jeito maníaco: não conseguia parar de ler quando começava, queria saber o que acontecia, queria desesperadamente saber o nome da narradora.

Assim que terminei, já comcei a assistir a série e, em dois dias, terminei os episódios da primeira temporada desejando ter feito algum tipo de intervalinho. Também adorei a série, apesar das diferenças com o livro. É incrível. Recomendo ambos fortemente.

  • “O pintassilgo”, Donna Tartt

Esperava mais de “O pintassilgo”, pois, afinal, tinha bastante expectativa. Se eu narrasse aqui tudo que passei lendo esse livro, teríamos uma história tão desnecessariamente longa quanto o livro de fato. Essa foi minha escolha para a categoria de calhamaço (um livro com mais de 500 páginas) desafio luxuoso e terminei com a sensação de que poderia ter escolhido melhor.

Enquanto lia “O pintassilgo”, ele nunca, jamais, parecia estar mais próximo de acabar. A história é a de Theo, um menino que perde a mãe muito cedo em um atentado em um museu e vive tentando lidar com essa perda e com um segredo – uma pintura raríssima de um pintassilgo, tirada do museu no dia da morte de sua mãe. O livro é narrado pelo Theo em primeira pessoa, e ele é um personagem que eu não fui capaz de gostar, não achei carismático e com o qual eu não me importava muito. Na verdade, eu não gostava muito de nenhum dos personagens, com exceção de Hobbie. Não me prendeu, não tinha vontade de saber o que ia acontecer e achei a trama muito arrastada e com uns diálogos meio ruins. Não chega a ser um livro ruim, mas também não diria que é um livro BOM; então, sei lá, não valia as 720 páginas.

  • “Nimona”, Noelle Stevenson

Não podia ter tido uma escolha melhor para curar o ranço que estava vivendo após a leitura eterna do calhamaço da Donna Tartt. Achei “Nimona” tudo isso, sim: é divertido e é forte, os personagens são todos muito fáceis de se apegar, os traços são lindos (é uma história em quadrinhos), a história é ótima – a de uma menina com poderes de se transformar em qualquer ser que vai ajudar um vilão em seus planos malignos, ainda que, na verdade, o vilão não seja tão vilão e os planos malignos não sejam tão malignos. Adorei de verdade. Acho, inclusive, que podia ter mais.

  • “Ponciá Vicêncio”, Conceição Evaristo

Li “Ponciá Vicêncio” para outro encontro do Leia Mulheres de Maringá. Apesar de acabar não podendo ir à discussão, fiquei feliz por ter tido essa motivação para ler o livro, que é excelente. Já tinha lido contos de Conceição Evaristo e gostado muito, mas gostei ainda mais do romance.

A história é a de Ponciá, uma mulher que acompanhamos desde criança, quando vive com seus pais e seu irmão na roça, até quando ela sai, jovem, para viver na cidade. Além de acompanhar a nova vida de Ponciá, suas memórias e pensamentos, também acompanhamos um bocado das vidas de sua mãe e de seu irmão. Tudo isso em um livro breve e muitíssimo bem escrito, de um jeito que eu fiquei lendo, levando soco atrás de soco, satisfeita e sem vontade de pausar.

  • “Wicked”, Gregory Maguire

“Wicked” é uma dessas histórias que eu achava que já conhecia, mas que descobri que não sabia absolutamente nada, exceto que tinha alguma relação com “O Mágico de Oz” e que a Elfaba é verde. O livro acompanha Elfaba, a garota verde, desde seu nascimento até sua vida adulta, quando passa a ser conhecida como a Bruxa Má do Oeste. Nesse caminho, sabemos também de sua relação com Glinda, a Bruxa Boa, com o próprio Mágico de Oz e até temos uma interação com Dorothy.

O livro aborda muito mais questões políticas e de religião do que eu podia esperar – aliás, “Wicked” é, em sua essência, uma história que só faz sentido com seu contexto político e religioso. Nele, conhecemos o que acontece no reino de Oz, que está vivendo um momento conturbado sob o governo do Mágico (que é um ditador), além da relação entre a religião unionista, que crê em um único deus, e as religões antigas, com crenças em bruxas e fadas. Os personagens – especialmente Elfaba – vão se colocando no meio de tudo isso, e a posição de cada um nesse cenário é o que constrói a história. Curti.

  • “Caixa de brinquedos”, João Anzanello Carrascoza

Terminei esse mês tendo esse livro infantojuvenil de contos como última leitura completa. Li pois minha amiga e autora publicada Jaqueline Conte adquiriu seu exemplar para que fosse assinado por Carrascoza na Festa Literária de Maringá e acabei encarregada da missão de levar o livro para receber o autógrafo do autor. Não só gostei do livro como também gostei muito da mesa do Carrascoza no evento – só fiquei sofrendo por não ter “Caderno de um ausente” em mãos para pedir meu próprio autógrafo, pois gosto fortíssimo.

Li também dois outros infantis nesse tempo: “O menino azul”, da Cecília Meireles (rainha), e “Em cima daquela serra”, de Eucanaã Ferraz.

Que meus dois últimos meses do ano sejam produtivos, amém.

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One thought on “Leituras de 2017 (julho a outubro)

  1. Tava tão sem esperança desse post sair que, olha só, passei dias sem entrar nesse bloguinho de meu Deus e quando dei de cara com o texto que esperei por tanto tempo ele já tava completando 10 dias! Feliz 10 dias de vida, texto <3!
    Amiga, COM CERTEZA você podia ter feito melhor com seu calhamaço do ano, não vou dizer nada além de ANNA KARIENINA. O Pintassilgo é bom, mas com certeza podia ter feito um pouco mais com um tanto menos de páginas. Agora, vendo você falar dele e lembrando da saga do Theo com o quadro lembrei um pouco de Crime e Castigo – e não acho que fiz essa analogia enquanto eu mesma estava lendo, curioso.
    EU AMO a história de Wicked, preciso ler o livro ainda, mas acho o musical fantástico e é super isso aí de altas tretas políticas e VAMOS DERRUBAR O MÁGICO e é quase a versão Nimona de o mágico de Oz, porque mostra pra gente que quem a gente achava que era vilão na verdade nem era, né, rssss.
    Te amo <3

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