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A vida não é a que a gente viveu

Eu tenho a noção de que estou falando demais sobre esse livro. Já falei dele na newsletter e tenho mencionado ele em conversas como se esse fosse o único assunto possível ou o tema que pode ser citado em todos os assuntos praticados. E lá vou eu falar mais. Desculpa. Não tô conseguindo evitar.

Viver para contar” é a autobiografia de Gabriel García Márquez, publicada originalmente em 2002. Aqui no Brasil saiu em 2003, em uma edição da Record que é bem simpática de rosto, não tem problemas de revisão no texto (como tem a edição de “Cem anos de solidão”) e só me deixou meio bolada por não ter orelhas, o que faz com que a capa, que não é dura, crie uns amassados chatos devido a transportes em bolsas e etc. Nada que a gente não consiga superar – diferentemente do conteúdo do livro, que provou-se insuperável.

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Com sua narrativa mais deliciosa impossível, o autor fala da sua vida em um esquema que não obedece regras temporais e ondula de antes de seu nascimento e infância até seu futuro como grande escritor. Porém, as partes em que ele mais se concentra no livro são lá pelas décadas de 1940 e 1950, quando ele é apenas um jovem começando a vida. Nessa onda, a história é muito da vida de Gabo como estudante e em sua carreira como jornalista. De romance mesmo a gente pode ver apenas como é que ele escreveu o seu primeiro, “La Hojarasca”, publicado em 1955. Nem por isso o livro deixa a desejar para quem quer saber mais do García Márquez como escritor.

Logo de cara a gente descobre que a vida deste homem veio em combo: além de talento para escrever, Gabito é dono de uma memória estupidamente fantástica e de uma imaginação gigantesca, que são acompanhadas de talento para desenho e música. Sim, Gabriel cantava com esplendor. Apesar das oportunidades mil de ser artista, ele decidiu ser escritor e conta no livro como foram seus exercícios e técnicas, tentativas de melhorar sua escrita, insatisfação com os primeiros textos e, principalmente, suas referências. Se você estiver procurando por referências literárias de um grande escritor, esse é o lugar. Gabito cita tudo que ele gostava de ler (e é muita coisa!) e, em alguns casos, fala também de como autor X ou Y influenciou na sua escrita, de Homero a Faulkner, Kafka e Borges.

Ele também conta de vários detalhes que seriam no futuro usados em seus romances. Tipo como a família de “Cem anos de solidão” é inspirada na própria família e a história de amor de Florentino Ariza e Fermina Daza, de “O amor nos tempos do cólera”, é inspirada na história de amor de seus pais. Tem a origem do sobrenome Buendía, do nome Macondo, das características e existências de vários personagens. O que é maravilhoso. Gabo colecionou as informações para usar anos, décadas, depois e eu me senti descobrindo as coisas junto com ele.

Mas, o que mais pesa no destino de escritor de Gabriel é sua carreira de jornalista – não sei com certeza se na vida, mas certamente no livro. Diz Gabriel que o jornalismo é “o melhor ofício do mundo” (há controvérsias) e ele conta como foi colaborador de vários jornais e revistas, publicando seus primeiros contos, descobrindo o universo das reportagens e escrevendo um sem fim de notas assinadas ou não. Foi assim que ele começou a ficar conhecido e adorado na Colômbia e foi assim também que ele fez muitos amigos.

Talvez o aspecto que eu mais tenha gostado no livro seja esse das amizades. Ainda que fosse tímido, como ele mesmo descreve, Gabo parece ter sido uma pessoa de amizade fácil e que cultivou longas amizades ao longo da vida inteira com pessoas que vão desde poetas e artistas até a nomes importantes da política, como Fidel Castro, por exemplo. Fica claro o quanto ele admirava os amigos, o quanto as amizades contribuíram em diversos momentos da sua vida e influenciaram sua escrita, com opiniões que ele considerava muito. A forma como Gabo fala dos amigos é algo que eu não sei superar. Ele descreve Clemente Manuel Zabala como “um conversador infinito, de uma inteligência verbal deslumbrante, um aventureiro da imaginação que inventava realidades inverossímeis nas quais ele mesmo acabava acreditando”. Quando li “Eu não vim fazer um discurso”, meu discurso favorito foi o que Gabo dedica a seu amigo Álvaro Mutis e, na autobiografia, também me apaixonei pelo jeito que ele fala de Mutis em vários trechos. Tais como:

[…] bastou nos encontrarmos para que começássemos uma conversa que não terminou até hoje, em incontáveis lugares do mundo, durante mais de meio século. Primeiro nossos filhos, e depois nossos netos nos perguntam sempre de que falamos com uma paixão tão veemente, e respondemos dizendo a verdade: falamos sempre da mesma coisa.

Eu queria demais ter sido amiga deste homem.

olha esses migos

O autor também fala de sua vida boêmia, das mulheres e bebedeiras. Fala muito de suas dificuldades e como ele conviveu por muito tempo com a pobreza, tendo apenas duas mudas de roupa, pouco para comer e teto nenhum para dormir. Gabo teria andado por muito tempo com aparência “de mendigo”, vestindo sandálias, camisas com estampa de flores e pássaros, cabelos cacheados e revoltos e um bigode bagunçado – assim como um dia seria o uniforme de estudantes de humanas, incluindo daqueles que têm dinheiro mas cultivam a aparência como um mascote. Por conta da sua aparência, Gabito era considerado por muitos como comunista, o que ele diz que nunca foi. O contexto político da Colômbia, aliás, é de grande importância em todo o livro, com vários acontecimentos históricos descritos e narrados com detalhes.

O livro acaba meio que de repente, em uma viagem de Gabo para Genebra na qual ele começa a se corresponder com a sua futura esposa. Queria tanto continuar sabendo da vida dele. Quando levei minhas preocupações para a webs, descobri que “Viver para contar” era apenas o primeiro do que García Márquez pretendia que fosse uma trilogia de autobiografias, até que a doença o pegou e não permitiu que os outros livros fossem escritos jamais.

Quem gosta do autor, como acredito ter ficado claro que é o meu caso, certamente vai gostar muito. Também vai gostar quem gosta de ler sobre a vida dos outros, pois é uma vida que seria interessantíssima ainda que não fosse a de quem é. Obviamente recomendo.

“A vida não é a que a gente viveu,
e sim a que a gente recorda, e como
recorda para contá-la.”
Viver para contar, Gabriel García Márquez (Record, epígrafe)

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2 thoughts on “A vida não é a que a gente viveu

  1. Definitivamente há controvérsias sobre jornalismo ser o melhor ofício do mundo, mas provavelmente o problema não é ele, sou eu (que já não tinha muito amor desde o início, haha). Nunca li nenhum livro dele, mas pretendo ler e fiquei curiosíssima com essa biografia!

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