historinhas

Breve compilado da estupidez humana

Se tem uma coisa que eu frequentemente pratico, mesmo que involuntariamente, essa coisa é a estupidez. E, acredito eu, é possível de se aprender com a estupidez alheia a não sermos estúpidos no futuro. Portanto, abracem aqui essa bela chance de aprenderem comigo.

***

Estava em Curitiba e ainda não estou mestra na arte de pegar os ônibus corretos. O negócio é que me confundo com o sentido vezes demais e acabo me enfiando no ônibus da linha certa, mas que está indo para o lado contrário do que eu preciso ir, uma coisa que poderia ser evitada com a ação simples de atravessar a rua e utilizar o outro ponto. Como já fiz isso em três cidades diferentes (incluindo Maringá), em ocasiões que percebi apenas dentro do ônibus que estava indo pro caminho errado, agora estou me policiando para sempre perguntar qual o sentido certo. Afinal, apenas os nativos podem esclarecer questões que o Moovit (sou usuária adepta e fã declarada deste aplicativo que mais parece um anjo) não consegue evidenciar.

Bem, então lá estava eu em Curitiba. Na minha carteira tinha duas notas de 2 reais, uma nota de 50 e algumas moedas. Saí de uma aula em um lugar diferente, chequei no Moovit onde era o ponto certo para voltar e quando cheguei tinham dois tubos. Confiei no meu instinto, peguei os 4 reais na carteira, paguei o cobrador e entrei em um dos tubos. Meu instinto é estúpido. Desconfiei. Resolvi perguntar e, óbvio: estava no tubo errado.

Saí, derrotada, em direção ao tubo do outro lado da rua. A cobradora disse aquelas palavras horrorosas que gelam um coração em instantes: não tenho troco. Comecei a contar as minhas moedas, me atrapalhando toda na conta porque, além de ser péssima com números, estava amaldiçoando a minha estupidez. É claro que as moedas não eram o suficiente. Ridícula. Mas essa história tem um final feliz. Não precisei cair de joelhos perguntando aos céus a razão da minha estupidez, nem fiquei abandonada e sozinha em uma cidade meio que desconhecida. Contrariando a lenda dos curitibanos ruins, um cara apareceu e passou o cartão dele pra eu entrar. Morri de agradecer. Entrei no ônibus certo e cheguei ao meu destino.

***

Estava no Rio de Janeiro e tinha acabado de organizar minhas coisas no armário do hostel antes de sair para turistar. O cadeado novinho que eu tinha comprado para a viagem vinha com duas chaves. Pensei: melhor guardar separado. Coloquei uma dentro da bolsa, a outra dentro da necessaire. Tudo perfeito, não fosse a estupidez. Peguei a necessaire e a bolsa, coloquei as duas dentro do armário, tranquei o cadeado. Estúpida.

Tive que explicar a minha estupidez um sem fim de vezes: para todos que tinham viajado comigo, para a moça do hostel para quem pedi um alicate, para os funcionários da loja em que comprei uma serra para resolver o problema. Minha primeira compra em terras cariocas: uma serra. Passei o dia todo turistando, subindo e descendo ladeiras e escadarias com uma serra na bolsa. De volta ao hostel, eu e duas amigas (anjas) nos alternamos na serrinha até que o cadeado foi, enfim, vencido.

uma imagem real (tão horrível quanto a situação)
uma imagem real (tão horrível quanto a situação)

***

Estava em casa e era um dia qualquer. Começou a chover de repente e o vento, uma coisa louca, trazia muita da chuva, que já começou torrencial, pelas janelas. Fechei a janela do quarto. Pensei: a sala deve estar alagada. Saí correndo para fechar as janelas. Correndo. Estúpida.

A sala estava alagada. Minha imbecil correria fez com que eu escorregasse violentamente na poça que já tinha se formado no chão. Caí com tudo. De costas. Braço torto, cabeça produzindo um baque alarmante no choque com o chão. Minha irmã vinha logo atrás de mim, também pensando em fechar a janela só que caminhando como um ser humano racional. Ela nem conseguiu soltar aquele gostoso riso de quem vê um coleguinha se esborrachar no chão, só me olhar com cara de desespero.

Me arrastei para cima do colchão na sala (nessa época eu não tinha sofá) com dores por todas as partes. Fiquei deitada por vários minutos com elas: as dores, as lágrimas e a minha estupidez. Quem fechou a janela foi a minha irmã.

***

Eu tinha 15 anos e estava me arrumando para a festa de 15 anos de uma amiga. Meus pais já estavam prontos, minha irmã já estava pronta e eu, já vestida, não conseguia ficar satisfeita com o meu cabelo. O meu cabelo tem um problema sério: na frente, bem na parte da franja, tem um “redemoinho” em formato de S que insiste em me tirar do sério. Nesse dia, eu já não aguentava mais tentar ajeitar o negócio com produtos, chapinha e o poder da mente. Então, fiz o que qualquer estúpida faria nessa situação: me tranquei no banheiro, peguei uma daquelas tesourinhas escolares e cortei uma franjinha. Sim.

Vejam bem. Por um motivo qualquer – digamos, a estupidez – eu achei que, se ao invés de ter franja comprida eu tivesse uma franjinha, todos os meus problemas estariam terminados. Não acho que vocês ficarão surpresos quando eu disser que não foi bem assim. Além de ainda ter um redemoinho que meio que dividia minha franjinha em duas partes, eu tinha uma nova e ridícula franjinha muitíssimo torta. Isso porque eu juntei toda a frente do cabelo, enrolei e cortei com uma TESOURA ESCOLAR. As pontas ficaram mais desconexas que os meus pensamentos.

Quando saí do banheiro, derrotada, minha mãe deu um berro perguntando o que tinha acontecido. Minha irmã soltou uma gostosa gargalhada. Tive que prender a franjinha com um grampo. Coisa que, pasmem, eu poderia ter feito desde o princípio. Mas, agora, eu estava apenas na primeira de semanas de vezes que eu usaria a franja presa para camuflar a estupidez capilar.

O mais incrível – e estúpido – é que esse não foi o meu primeiro deslize. Quando criança, me escondi com uma tesoura escolar (sempre) dentro do armário de casa e picotei o cabelo. Naquela vez as coisas já não tinham dado muito certo; na verdade, o índice de sucesso foi bem nulo. E ainda assim lá estava eu, anos depois, refazendo a cagada. Não sejamos mais como eu fui. Vamos todos beber dessas experiências. Vamos todos ser menos estúpidos.

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