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Seu Zequinha

Eu não vivi a experiência ativa de ter um avô presente. Meu avô materno faleceu muitos anos antes que eu nascesse e meu avô paterno morava longe, o vi poucas vezes e ele faleceu quando eu ainda era muito criança. Talvez por isso (ou por outras razões, sei lá, não sou psicóloga) eu frequentemente adoto idosos como meus avôs platônicos. Já aconteceu com o escritor Ricardo Azevedo, durante um evento de literatura. Já aconteceu com um velhinho barbudo lendo em um e-reader num restaurante do Rio de Janeiro. Já aconteceu com um japonês que fez uma viagem de mais de vinte horas de van com a minha turma para um evento acadêmico.

E aconteceu com o seu Zequinha – com a notável diferença de que com esse, ao contrário dos outros, eu realmente cheguei a trocar palavras.

O seu Zequinha já não tinha mais cabelo, mas sustentava um bigode completamente branco. Usava óculos e estava sempre de calça social e camisas de botão. E tinha uma perna de pau (eu nunca soube o que tinha acontecido com a perna real que faltava). Ele era um velhinho sorridente e alto astral, que falava alto e contava piadas.

seu zequinha era uma versão de bigode branco do steve harvey

Seu Zequinha morava na casa ao lado da minha; era uma casinha de madeira com um galinheiro no fundo e um bar na frente. E, desde os primórdios da minha existência, fui uma frequentadora assídua desse bar. Conta minha mãe que antes que eu aprendesse a andar direito, já conseguia escalar uma mesa e gritar pela janela “QUINHA, VEM ME BUSCAR!”. E o seu Zequinha ia me buscar. E lá ficava eu, uma bebê minúscula de olhos gigantes sentada no balcão ou na mesa de sinuca, ganhando doces dos frequentadores. Aí eu cresci e comecei a ir andando para lá, comprava meus próprios doces, minhas figurinhas para o álbum do dragon ball, e ficava batendo um papo com o seu Zequinha.

Ele tinha um lugar de sempre: um banquinho de concreto na frente do bar. Quando passava para ir à escola de manhã, seu Zequinha já estava sentado lá. Quando eu voltava ao meio dia, ele ainda estava no mesmo lugar. E, em todas as vezes, nós nos cumprimentávamos do nosso jeito: um gritando para o outro “é eu!” (que soava mais como ÉIEU). Todos os dias. Durante anos.

Quando o seu Zequinha morreu eu já não morava mais na cidade e a minha mãe levou uns dias para ter coragem de me contar. Dia desses encontrei com a filha dele e ela me disse que sempre que olha pra mim, se lembra do pai. Eu também sempre lembro dele quando olho para a frente do bar (que já foi o bar de outras pessoas, uma igreja e agora é só um espaço vazio) e não tem ninguém sentado lá.

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2 thoughts on “Seu Zequinha

  1. Meu avô paterno morreu quando meu pai não tinha nem 20 anos (nasci quando ele tinha 32) e o meu materno morreu uns dois anos antes que eu nascesse. Sinto falta de um avô às vezes também, mas nunca adotei um para mim. Sempre fui a criança que não se misturava com os adultos, que não chamava mãe e pai de amiga de tio e tia – isso só aconteceu anos depois. Fico triste que seu avô postiço tenha falecido, mas o lugar que ele deixou em você é incrível! Nunca perca isto.

    Beijos, Kahzinha <3

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  2. Oxi, Kah =/
    O triste dos avós, incluindo os “adotivos”, é que parece que a gente nunca tem tempo suficiente com eles, né =/
    Eu só cresci com avô e avó maternos. O vovô por parte de pai morreu quando eu tinha pouco mais de um ano e minha mãe conta que eu já reconhecia a voz dele de longe e ficava “vôvôvôvôvôvôvô”. Acho que a gente ia ser muito próximo :'(

    [Só queria dizer que estou com muita raiva de mim mesma por ter passado tanto tempo sem vir aqui porque saudades dos seus posts e fazer uma pressão básica pra que você escreva mais, kkkk <3 (e como cê leu esses dias, sô!)]

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