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About a Boy: o livro, a série e o filme

Eu comecei pelo fim. Conheci a história de About a Boy com a série da NBC, que estreou em 2014 e foi cruelmente cancelada no meio do caminho, em plena segunda temporada. Quando soube que a série era inspirada num livro do Nick Hornby, quis ler. A ordem natural das coisas me fez assistir ao filme assim que terminei o livro. Demorou, mas agora eu estou com a tríade completa.

quando o Marcus da série pensa na sua versão original

Os personagens principais são os mesmos – Will, Marcus e Fiona – mas é meio difícil dizer que a história é a mesma quando coisas tão diferentes estão presentes (ou faltando, depende do seu ponto de vista) em cada uma das adaptações. A base é a mesma, sim. Will é um solteirão que leva uma vida boa, sem trabalhar e na qual todas as horas são horas de lazer. Fiona e Marcus foram uma dupla de mãe e filho com gostos diferentes da maioria das pessoas, o que faz com que Marcus seja um tanto deslocado com outras crianças. Marcus e Will acabam se conhecendo e ficando amigos, ainda que com a resistência de Will no começo. E é isso. Mas, ao mesmo tempo que livro, filme e série exploram essa mesma história, eles fazem isso de um jeito diferente.

Na série, tudo é muito fofinho; a série é apaixonantemente fofa. Benjamin Stockham é um Marcus adorável, Minnie Driver é uma Fiona otimista e os dois nutrem uma relação próxima e claramente cheia de amor & carinho. Os dois conhecem Will porque ele é seu vizinho, um Will vivido por David Walton, bem humorado e bem menos resistente em solidificar uma amizade com Marcus (que o adora).

Eu já devia saber que um livro do Nick Hornby não me traria personagens fofinhos. Afinal, é isso que eu aprendi com os outros livros do autor: a galera é cheia de defeitos, cheia de problemas. Will é um cara cínico, egoísta, babaca e cafajeste. Fiona tem depressão. Marcus é uma criança que não consegue se adaptar na escola, sofre um bullying danado e tem que lidar sozinho com a situação da mãe.

O Marcus do livro não adora o Will (que não é seu vizinho e o conhece quando está sendo um cretino). Ah, não. A amizade dos dois começa porque Marcus apenas quer ter mais alguém por perto, porque duas pessoas não é mais o suficiente para dar a segurança de uma família que ele precisa. E é aí que o seu coração parte. Ele é uma criança. Ele não devia estar nessa situação.

O Marcus do filme, interpretado por um Nicholas Hoult novinho, tem o mesmo destino infeliz do Marcus do livro. Aliás, o filme tem muita coisa do livro. Assim como em Alta Fidelidade, o cinema chegou com diálogos com trechos exatamente iguais aos do livro. Em termos de acontecimentos, não houveram muitas mudanças. Mas as mudanças de clima estão lá – o filme até mantém o bullying e a depressão, mas coloca isso de uma forma mais leve.

Um dos momentos mais importantes do filme, por exemplo, não está no livro – uma cena em que Will corre para salvar Marcus da humilhação na apresentação de uma música em um festival da escola. Mas, na série, isso está presente. Trocam-se as músicas e os instrumentos, mas fica a essência: um momento grandioso, que, no filme, é a chave para que os conflitos comecem a se ajeitar.

Fora os bocados de alterações na história – que a gente meio que já espera que vão existir -, o que mais vale ressaltar é a de destaque de personagens. A série tirou uma licença pra criar uns personagens que não existem (ou são totalmente irrelevantes) no livro e no filme, como Andy, o melhor amigo de Will, e sua esposa Laurie. Já na série, o pai de Marcus não é tão importante quanto no livro; no filme, ele quase não aparece também.

Além disso, filme e o livro têm coisas inimagináveis no universo da série. A tentativa de suicídio de Fiona, por exemplo. E o clima pesado, pessimista. Na série, as coisas nunca estiveram ruins de fato, então dá para imaginar que o final (não fosse o cancelamento) seria feliz. No filme, as coisas se ajeitam para o fim e tudo acaba meio que ok. Mas, no livro, o final não é tão bacana. Para conseguir se adaptar melhor, Marcus muda – nada daquela história Disney de pessoas te aceitando como você é; você é que tem que mudar para conseguir se encaixar, ser aceito ou apenas não ser mais notado.

A gente quer que a vida seja a série, mas a vida é o livro. E isso dói mais que a história em si.

“Era mole, a vida, moleza, uma simples questão de aritmética: só valia a pena amar as pessoas e se deixar ser amado se as chances estivessem a seu favor, mas elas claramente não estavam. Havia cerca de setenta e nove zilhões de pessoas no mundo, e se você tivesse muita sorte acabaria sendo amado por quinze ou vinte delas. Portanto, quanta inteligência era necessária para perceber que simplesmente não valia a pena?”
Um Grande Garoto, Nick Hornby (Rocco, p. 132)

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3 thoughts on “About a Boy: o livro, a série e o filme

  1. Não lembro muito do livro (li quando estava na adolescência), só de ter gostado bastante. O filme eu revi não faz muito tempo e é uma adaptação bacana, mas pela sua descrição da série já senti que eu não gostaria dela.

    O lance do Hornby é que ele usa um humor auto-depreciativo em seus personagens que fica entre o cômico e o sádico. Isso é mais palpável em Alta Fidelidade (um dos meus livros favoritos da vida) e em Um Grande Garoto. Como Ser Legal parece mais conformista e uma tentativa de ver o lado bom do comum, da rotina, e Uma Longa Queda foi tão ruim que nem lembro direito do que trata.

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    1. Eu gosto muitíssimo de Alta Fidelidade, um dos meus favoritos também. Gostei de Um Grande Garoto, tanto do livro quanto do filme e da série (vale a pena dar uma chance se você estiver procurando algo mais levinho). Gosto bastante dessa vibe do Nick Hornby; também gostei de Como Ser Legal e de Juliet, Nua e Crua. Não li Uma Longa Queda, mas agora que você falou fiquei com um pé atrás.

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  2. ~~~simplesmente não valia a pena~~~~~~~~~
    muito vida mesmo essa parada aí.

    mas fiquei confusa, porque você se empenhou mesmo nesse negócio de não dar spoilers, então não entendi muita coisa, mas entendi a essência, sabe assim?
    já assisti ao filme e me lembro até de ter comentado com vc que fiquei bolada com a mudança de clima, mas acho que não quero ler o livro não.

    enfim, o importante é que what makes you beautiful para mim sempre será marcus e essa é uma lembrança que eu gosto de ter, então tive sim que assistir ao vídeo (que não está funcionando na incorporação).

    é isso aí. vlw flws.

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