qualquer coisa

Conceituando o cheiro do gosto

Estava lendo um livro e me deparei com uma expressão que eu usava quando criança e há muito não falava nela. Talvez porque, quando meu eu infantil comentou com a minha mãe que achava que flanela tinha o cheiro do gosto de pipoca, a reação não foi das mais calorosas ou compreensivas. Na verdade, ela provavelmente achou que eu estivesse louca. Agora, ao ler  “o cheiro do gosto” em um negócio lançado anos após essa minha experiência frustrada, pensei que muito mais pessoas devem achar que uma coisa pode ter o cheiro do gosto de outra.

Porém, aparentemente, não é tão simples localizar alguém assim. Ou apenas explicar o que eu quero dizer com “cheiro do gosto”. Não é sentir cheiro de bacon e lembrar do gosto do bacon. Não é sentir um cheiro tão intenso que você tem a sensação de que consegue prová-lo. Não é achar que um batom tem gosto de morango porque ele tem cheiro de morango mesmo que você nunca de fato tenha comido o batom. É associar o cheiro de alguma coisa ao gosto de outra coisa.

Se uma pessoa pode associar uma música a uma outra pessoa, por que ela não poderia associar um cheiro a um gosto? Então tá tudo bem ver um objeto e lembrar de um ser humano, mas sentir um cheiro e lembrar de um gosto é esquisito? Então tá suave falar em spirit animal mas falar que flanela tem o cheiro do gosto da pipoca não faz nenhum sentido? Vamos botar a mão na consciência. E não venham me dizer que isso é cientificamente impossível, isso de sentir o cheiro de um gosto. Isso é algo que tem mais a ver com memória.

“O aroma de água de violetas, denso e enjoativo, pairava dentro da casa. Sua tia-avó Alanna sempre tinha um pacote de balas violetas na bolsa, que Fat Charlie só comia se não houvesse outra opção, mesmo sendo uma criança gorducha e louca por doces. A casa tinha o mesmo cheiro do gosto daquelas balas.”
Os Filhos de Anansi, Neil Gaiman (Intrínseca, p.218)

Tenho certeza que alguém me entende.

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One thought on “Conceituando o cheiro do gosto

  1. ISSO SE CHAMA SINESTESIA. KARININHA SINESTÉSICA.
    Mas lembrei agora que minha professora de pintura, na minha mais tenra infância, achava que pincéis novos tinham cheiro do gosto de barata. Só que ela nunca tinha comido barata (cause of reasons), então na verdade ela associava com inseticida, que ela também nunca tinha comido. E AGORA???? Estou confusa.

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