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Cordei, cadê cultura?

Mario Vargas Llosa está preocupado. Mais que isso: em “A civilização do espetáculo”, o autor peruano está desolado, desacreditado. Ao longo de pouco mais de 200 páginas, Llosa argumenta que a cultura caminha para seu completo abatimento – ou, pelo menos, este parece ser o destino do que ele entende como o que verdadeiramente significa cultura.

Publicado em 2013 pela editora Objetiva, o subtítulo do livro é “Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura”. Mas, talvez o termo devesse ser “psicografia” já que Llosa só pode ter psicografado este livro incorporando as vozes do além dos mais renomados artistas – Shakespeare, quem sabe – daquela época boa em que existia cultura de verdade.

Llosa olha pra cultura e fica descontrolado.
Vargas Llosa olha pra cultura e fica descontrolado

De cima do seu pedestal, afinal deve ser difícil engolir o ego depois de ganhar um Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa despeja sua análise que não poupa pessimismo, generalismos, apego pelo passado e um certo elitismo. Além, é claro, de muito sangue no zóio na hora de criticar algumas pessoas que ele se recusa a chamar de artistas e um espaço para desabafar seus desagrados por Foucault e Baudrillard.

Literatura best-seller? Subliteratura, superficial, feita para desaparecer (“como sabonetes e refrigerantes”). Woody Allen? Ridículo. Andy Warhol? Patético. Literatura virtual? Blogs? Twitter? Horror dos horrores. Tudo que é popular ou mainstream parece causar um imenso desagrado no peruano. Bom mesmo, ele acha, eram os tempos passados. O raciocínio segue uma linha muito tudo bem que agora mais pessoas têm acesso à cultura, bacaninha, mas era muito mais legal quando arte e cultura era apenas uma coisa para elite. Tá me entendendo?

Ele gosta de regras. De críticos de arte e elites influentes que apontem para o povão o que é de bom gosto ou o que merece atenção e o título de “arte”. Cultura pode ser A, B e C. Cultura não pode ser X, Y e Z. Onde é que foram parar as regras? Agora a galera acha que pode fazer arte? Acha que cultura é pra geral? Tem que ter limites, a falta de limites deixa o menino Mario nervoso.

Em alguns trechos, o autor soa exatamente como o meu pai, quando se refere ao Facebook como “facebosta”. Uma vontade zero de aceitar o que é novo, de enxergar o que é bom ou útil, e se concentrar apenas em apontar o dedo e prever o fim dos tempos e de uma humanidade pela qual valha a pena viver.

“Confesso que tenho pouca curiosidade sobre o futuro, no qual, a continuarem assim as coisas, tendo a descrer.” (p. 184)

Tudo novo é ruim. Não tem mais Mozart, não tem mais Homero, não tem mais Picasso. As obras atuais não têm mais reflexão, valor intelectual, conteúdo significante. Tudo é pura e unicamente entretenimento. O que temos agora é uma população essencialmente babaca entre as quais apenas algumas raras exceções (tais como ele mesmo) ainda sabem dar valor e nutre interesse no que é bom, no que é arte, no que é cultura. O resto está apenas interessado em se divertir – e, neste livro, o autor se preocupa menos em debater os motivos e mais em colocar os ~fatos.

Já tinha lido quatro outros livros do Llosa, gostei de todos eles e dois são alguns dos meus favoritos de toda a vida. Por isso, fiquei um tanto quanto ressentida ao descobrir que, como ser humano, ele é um tanto intragável. Sinceramente, foi fácil discordar do que ele fala. Além do mais, não é bastante curioso que alguém que critica tanto a superficialidade das produções atuais comece um argumento com “não tenho como demonstrá-lo” e termine fazendo previsões apocalípticas nas quais ele espera que acreditemos pois afinal é ele quem está dizendo?

Mario Vargas Llosa acha que a cultura está morrendo e, pelo andar da carruagem, muito em breve estará a sete palmos. No momento, eu acho que ele está errado.

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One thought on “Cordei, cadê cultura?

  1. “a falta de limites deixa o menino Mario nervoso” AHHAHAHHAHAHAHA
    Me atrapalhei na última frase e achei que você tava falando que o Llosa estará falecido em breve. Não que ele seja ainda um jovem rapaz e, bom, para morrer basta estar vivo, né.
    Seja bem-vinda de volta ao mundo blogueiro, miga. Senti sua falta por aqui (não que eu seja oh meu deus uma blogueira muito ativa).
    Vários pacová pra você.

    [o que fazer depois da faculdade?]

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